A declaração do prefeito de Manaus, David Almeida, de que a saúde da capital seria superior à da Alemanha e da Itália não é apenas um exagero retórico. Trata-se de uma afirmação tecnicamente equivocada, politicamente irresponsável e desconectada da realidade administrativa do município.

Pela própria estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS), a atribuição direta da Prefeitura é a Atenção Básica: postos de saúde, unidades básicas, vacinação, acompanhamento de gestantes, prevenção e atendimento clínico inicial. Não cabe ao município comparar-se a sistemas nacionais europeus, financiados por décadas de alto investimento, tecnologia e integração plena entre níveis de atenção.

É justamente na saúde básica responsabilidade exclusiva do município que Manaus enfrenta seus maiores gargalos: filas para consultas simples, déficit de médicos, cobertura desigual da Estratégia Saúde da Família e unidades com estrutura precária, sobretudo nas periferias. Dados do Ministério da Saúde, do IBGE e apontamentos do TCE-AM confirmam essa realidade.

Quando um gestor ignora esses limites legais e administrativos para sustentar discursos grandiosos, o resultado não é liderança, mas descrédito. A população não exige comparações internacionais; exige médico no posto, exame em tempo razoável, remédio disponível e respeito à inteligência coletiva.

O início de 2026 escancara um problema recorrente da atual gestão: a opção pela soberba discursiva em vez da humildade administrativa. Em saúde pública, delírios custam caro e quem paga é sempre o cidadão mais pobre, dependente da atenção básica municipal.

Saúde básica de Manaus: o que dizem os dados oficiais e o que cabe à Prefeitura

A recente declaração do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), afirmando que a saúde da capital seria superior à da Alemanha e da Itália, levanta um questionamento central: o que, de fato, é responsabilidade do município dentro do SUS e como está essa estrutura hoje?

Pela Constituição Federal e pela Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080/90), a principal atribuição dos municípios é a Atenção Básica, considerada a porta de entrada do sistema. Isso inclui Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Estratégia Saúde da Família, vacinação, ações preventivas e acompanhamento contínuo da população.

Levantamento com base em dados do Datasus e do IBGE mostra que Manaus apresenta cobertura desigual da Atenção Básica, especialmente nas zonas Norte e Leste, onde a dependência do SUS é maior. Nessas regiões, usuários relatam dificuldade para consultas básicas, exames simples e encaminhamentos.

Relatórios e decisões recentes do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) apontam problemas recorrentes na gestão da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), como falhas no planejamento, fragilidade na fiscalização de contratos terceirizados e execução orçamentária aquém do esperado em áreas essenciais da saúde básica.

Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que a comparação feita pelo prefeito ignora completamente o modelo federativo do SUS.

“Alemanha e Itália não são municípios, são países com sistemas nacionais altamente financiados. Em Manaus, o debate deveria ser sobre atenção básica resolutiva, não sobre fantasia retórica”, afirma um médico sanitarista com atuação no SUS.

Dados da OMS e da OCDE mostram que sistemas considerados referência internacional investem fortemente na atenção primária como forma de reduzir custos hospitalares e aumentar a eficiência do sistema. Em Manaus, porém, a fragilidade da base gera sobrecarga em prontos-socorros e hospitais estaduais.

A declaração do prefeito ocorre em meio a um cenário de desgaste político e alta rejeição popular, especialmente entre moradores de áreas mais vulneráveis justamente os mais dependentes da saúde básica municipal. Para analistas políticos, o discurso reforça a percepção de distanciamento entre a gestão e a realidade da população.

Enquanto isso, usuários seguem cobrando respostas concretas: ampliação da cobertura da saúde da família, valorização dos profissionais, manutenção adequada das UBSs e transparência no uso dos recursos. Comparações internacionais, sem base técnica ou legal, pouco contribuem para resolver problemas que estão há anos na porta de entrada do SUS em Manaus.

VEJA O VÍDEO:

c7003c91-3251-4804-abf6-df925f71ec1e